5 asiáticos, 1 estadunidense, 1 bebê e eu no Salar de Uyuni

O pôr do sol naquela imensidão branca me encheu os olhos e me tirou sorrisos. Tanto é que pensei não ser justo reclamar do vento forte ou da água salgada e gelada entrando por dentro das botas emprestadas. Na última parada do dia, o alaranjado do céu se despedia da forma mais bonita que eu já vi. O contraste das pessoas que mal se conheciam em direção ao sol só trouxe a certeza de que ali, nossas diferenças se resumiam a quase nada. Estávamos lá, um de cada canto do mundo dividindo sensações. E fomos embora em quietude, despedindo-nos uns dos outros como quem agradece por ter passado um pouco da vida juntos.

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Pôr do sol no Salar de Uyuni | Foto Francielli Campiolo

Depois de conhecer o Deserto de Atacama (alguns meses antes), o próximo destino seria o Salar de Uyuni, na Bolívia. Com 10.582 km² e a 3.656 metros acima do nível do mar, a maior planície de sal do mundo não pode estar fora do roteiro de quem deseja conhecer a América do Sul. Esse é daqueles destinos que não se tem dúvida de que vale a pena.

Planejei a viagem para outubro, pois novembro já começam as chuvas e alguns trechos do Salar ficam bloqueados. Vi o Salar seco, sem a camada de água que espelha o céu. Agendei o tour de um dia, que inclui o Cementério de Trenes, povoado Colchani, Hotel de Sal, Isla Incahuasi e um passeio no meio do Salar de Uyuni.

Ainda meio atrapalhada com o fuso horário, cheguei no local marcado com uma hora de antecedência e demorei para entender porque os carros saíam cheios de turistas e ninguém me chamava para entrar.

Às 10h30, eis que gritaram meu nome para entrar na 4×4, que já estava com seis pessoas amontoadas. Do lado de fora avistei quase todos de olhinhos puxados. Mas ainda vinha a surpresa: um bebê com menos de 2 anos iria com a gente. E a aventura de 9 horas estava prestes a começar.

Primeira parada: Cementério de Trenes

O Cementério de Trenes está bem perto da cidade de Uyuni, a cerca de 3km. As locomotivas abandonadas são do final do século XIX, que percorriam a linha férrea construída para o escoamento de minérios da região para os portos do Oceano Pacífico. A partir dos anos de 1940, as empresas entraram em falência e tudo ficou a céu aberto.

O lugar é cheio de turistas pela manhã subindo e descendo das ferragens para tirar fotografias. Foi aí que comecei a reconhecer o meu grupo, eles se ofereciam vez ou outra para tirar uma foto minha. Eram quatro adultos japoneses, a mãe, a filha, o filho, a esposa e o bebê. Além deles, havia um coreano e um estadunidense viajando sozinhos.

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Muito sol, ferrugem e gente no Cementério de Trenes | Foto Francielli Campiolo

Feitas as fotos, era hora de entrar de novo na 4×4 e disputar os primeiros bancos, pois o último era o mais apertado e quem sentasse nele seria o último a descer. Além disso, a mãe do bebê queria escolher quem sentava ao lado dela, cada vez era um da família. Lembrando que eles se comunicavam entre si só em japonês.

Colchani

É um povoado a 20 km de Uyuni, onde acontece a extração de sal manualmente pela população local de 600 habitantes. A partir dali, já é o Salar. Você irá encontrar artesanatos e poderá visitar um pequeno museu, que apresenta obras de artes andinas. Tudo desenvolvido com sal. Sabe aqueles montinhos de sal que vemos nas fotos? É nesse povoado.

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Extração manual de sal em Colchani | Foto Francielli Campiolo

Hotel de Sal

A visita e o almoço foram no Hotel de Sal Playa Branca, o primeiro do tipo em Uyuni. A comida estava divina. Para mim, arroz quentinho, palta, 2 ovos cozidos e salada de batata e cenoura. Todos sentados na mesma mesa, começamos a nos entender.

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A parada para almoço dos tours é no Hotel de Sal | Foto Francielli Campiolo

Por conta da altitude e vento, eu estava com a sensação de cabeça pesada. Tomei uma pílula do estadunidense e nessa conversa ele viu meu relógio do Pequeno Príncipe com uma frase e perguntou se eu falava francês. Daí ficamos mais amigos. Porque falar em francês é bem mais bonito.

Descobri que o casal de japoneses morava em São Paulo, o marido era correspondente internacional de um jornal japonês. A mãe dele e a irmã vieram visitá-los e todos tiveram a ideia de fazer uma viagem à Bolívia, com uma criança pequena e sem muita infraestrutura. Voilà!

Isla Incahuasi

A Isla Incahuasi é um lugar elevado com formações de cactos gigantes, de até 10 metros de altura. Para subir até o topo e usar os banheiros, é preciso pagar 30 bolivianos. Nem eu, nem o coreano e nem o estadunidense subimos. Ficamos andando pelo sal, tirando fotos e admirando cada pedacinho daquela brancura.

Nesse ponto do passeio, conversei mais com o coreano e soube que ele estava percorrendo a América do Sul capturando imagens para uma pesquisa em Antropologia. Eu tirava uma foto dele e ele tirava outra minha. Assim fomos até os japoneses voltarem para o carro.

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Cactos gigantes no Salar de Uyuni| Foto Francielli Campiolo

Neste local, tem várias bandeiras hasteadas. A do Brasil é um tanto quanto desproporcional, mesmo assim eu disse que se o coreano quisesse, ele poderia tirar uma foto segurando a bandeira do meu país já que não havia a da Coreia do Sul.

Fotos em perspectivas e o pôr do sol

Já estávamos no Salar de Uyuni desde o povoado de Colchani, mas aqui o guia nos levou para um local mais afastado para tirarmos fotos em perspectiva, que causam ilusão de ótica. A japonesa, muito simpática, sempre pensava em poses para o grupo. Teve foto com o dinossauro de brinquedo e com a embalagem de pringles. Depois, calçamos botas de borracha e fomos em um local alagado ver o pôr do sol, a parte mais bonita.

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Nós no maior salar do mundo| Foto Francielli Campiolo

Depois de 9 horas chegamos em frente à agência, em Uyuni. Neste tempo, teve choro, paradas para deixar as bagagens dos japoneses, risadas, conversas, atrasos e cumplicidade. O estadunidense me perguntou se eu não ficava entediada de viajar sozinha, mas é que há tempos eu gosto de vagarear. São nesses momentos que me viro como dá e compartilho alegrias com quem talvez eu nunca mais vá ver um dia. Deve ser por isso que as experiências se tornam tão intensas.

Links úteis

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